Duas semanas depois de lançar uma guerra de escolha para derrubar o regime iraniano esperando uma vitória rápida e limpa, Donald Trump se vê em sua maior gafe de política externa. É essa a avaliação de Ian Bremmer, fundador da consultoria Eurasia Group, em análise que desmonta passo a passo como a estratégia americana no Irã saiu dos trilhos — e por quê.
Para entender o erro, Bremmer usa o que chama de espectro FAFO-TACO. FAFO — sigla em inglês para “mexa comigo e descubra as consequências” – descreve países fracos demais para reagir a ataques americanos. TACO – “ameaça, mas recua” — descreve aqueles que, diante de ameaças existenciais, escolhem resistir a qualquer custo.
“Trump acreditava que o Irã era quase tão FAFO quanto a Venezuela de Nicolás Maduro: extremamente fraco e incapaz de resistir aos Estados Unidos”, escreve Bremmer. O problema é que ele estava errado.
A comparação com a Venezuela é central na análise.
“A Venezuela funcionou quase exatamente como planejado — militar, diplomática, econômica e estrategicamente. O Irã foi o oposto em todas as frentes, com consequências muito mais graves“, afirma Bremmer. O erro foi tratar como equivalentes dois países com naturezas radicalmente distintas.
“O Irã não é a Venezuela. E os ataques anteriores que os EUA realizaram sem retaliação significativa não eram ameaças existenciais à República Islâmica”, explica.
Quando os EUA e Israel enquadraram a operação como uma campanha maximalista de troca de regime – iniciada com o assassinato do aiatolá Khamenei -, o cálculo iraniano mudou.
“Quando os riscos são existenciais, Teerã se mostrou consideravelmente mais TACO do que Trump esperava“, sintetiza Bremmer. O Estreito de Ormuz foi fechado pela primeira vez na história. Sete soldados americanos morreram, 140 ficaram feridos. O Irã substituiu o líder assassinado pelo filho linha-dura Mojtaba Khamenei.
Agora Trump quer sair, mas não tem saída fácil. Israel não está pronto para parar. E o Irã quer a palavra final.
“Trump pode estar pronto para uma boa dose de TACO, mas é o Irã que decide quando ele vai receber — e a que preço”, conclui Bremmer, parafraseando Tolstói: Trump pode ter terminado com a guerra, mas a guerra ainda não terminou com ele.






