O mercado brasileiro de venture capital voltou a registrar expansão após um período de retração nos investimentos em startups. O movimento indica uma retomada gradual do apetite por risco, impulsionada por mudanças no cenário econômico global e por um ambiente de inovação que segue em evolução no país.
Dados divulgados pela KPMG mostram que os aportes em venture capital no Brasil somaram US$ 3,04 bilhões no último ano. O volume representa crescimento de 62,6% em relação aos US$ 1,87 bilhão registrados em 2024.
Apesar da recuperação, o patamar ainda permanece abaixo do recorde alcançado em 2021, quando os investimentos chegaram a US$ 7,9 bilhões durante o auge do boom global de tecnologia. Ainda assim, o resultado atual é o mais elevado desde 2022 e reforça sinais de reativação do setor.
A retomada ocorre em meio a uma reorganização do capital internacional. A expectativa de redução de juros em economias desenvolvidas tem levado investidores a buscar novas oportunidades em mercados emergentes, onde ativos podem apresentar maior potencial de valorização.
Venture capital volta a crescer com investidores mais seletivos
Nesse contexto, o Brasil volta a ganhar atenção de fundos estrangeiros, especialmente em segmentos ligados à economia digital. Avaliações mais moderadas após o ajuste do mercado também contribuem para tornar o país mais atrativo para novos aportes.
O avanço da inteligência artificial também influencia a dinâmica recente do setor. A tecnologia tem provocado revisões nas avaliações de empresas de tecnologia, ao mesmo tempo em que abre espaço para novos modelos de negócio e áreas de inovação.
Com a volta do capital, cresce também o nível de exigência dos investidores. Demonstrativos financeiros organizados, indicadores de crescimento e projeções de receita passaram a ter peso decisivo nas análises de fundos de venture capital.
Para Gabriel Capano, CEO da HubCount, a a organização prévia das informações financeiras deixou de ser diferencial e passou a ser requisito básico para qualquer negociação.
“Você pode ter um produto excelente e um mercado enorme, mas se não conseguir demonstrar isso com números claros, o investidor não consegue avaliar o risco do negócio. A transparência dos dados acaba sendo um dos fatores mais importantes para que uma captação avance”, diz.
O processo de captação normalmente começa com a elaboração de um pitch deck, documento que apresenta mercado, produto, modelo de receita e projeções financeiras da empresa. A partir daí, empreendedores iniciam reuniões com diferentes fundos em apresentações conhecidas como roadshows.
Se houver interesse inicial, os investidores avançam para a etapa de due diligence. Nessa fase, são analisados dados financeiros, contratos e a estrutura societária da empresa, geralmente organizados em ambientes digitais restritos chamados de data rooms.
No modelo tradicional de venture capital, os fundos realizam aportes em troca de participação societária, geralmente entre 10% e 20% da empresa em cada rodada de investimento. Esse processo gera diluição gradual da participação dos fundadores ao longo das etapas de financiamento.
Além dos fundos especializados, também cresce a atuação de programas de Corporate Venture Capital, nos quais grandes empresas investem diretamente em startups para acessar inovação e novas tecnologias.
A retomada dos investimentos indica um mercado mais maduro em comparação ao período de forte expansão observado no início da década. Hoje, além do potencial de crescimento, investidores priorizam consistência financeira, previsibilidade de receita e governança corporativa.






