Caro leitor,
O ataque norte-americano ao Irã marcou uma nova ruptura no cenário geopolítico, escalando o conflito a partir de exercícios militares, retórica diplomática e ameaças calculadas para uma ação concreta – com consequências que atingem diretamente o petróleo, o dólar, os mercados emergentes e a percepção global de risco.
A guerra apenas começou. E, diante de uma ruptura como essa, cresce a tentação de querermos organizar o mundo em dois desfechos possíveis: vitória ou fracasso, resolução rápida ou escalada descontrolada, tudo ou nada.
Essa necessidade de simplificação talvez diga mais sobre a condição humana – que busca a ordem em meio ao ruído –, do que sobre a própria dinâmica dos fatos.
Meu objetivo na newsletter de hoje não é prever o fim do conflito nem oferecer certezas prematuras. É apenas alertar para os riscos de segunda ordem: aqueles efeitos indiretos, menos visíveis e mais persistentes, que tendem a moldar preços, fluxos e prêmios de risco muito além do impacto inicial.
Em momentos assim, o maior perigo pode não estar no evento em si, mas na ilusão de que já entendemos seu desfecho. A história mostra que os mercados raramente reagem apenas ao fato inicial. Eles reagem às camadas que se revelam depois. É justamente sobre essas camadas que quero organizar a reflexão a seguir:
1. O Brasil no Radar com Novo Impulso
Desde o início deste ano, o Brasil já vinha ganhando atenção global em função de seu papel como fornecedor de commodities no contexto de uma esperada rotação global. O recente ataque dos EUA ao Irã – com ramificações geopolíticas e energéticas – forneceu um novo impulso à valorização de commodities como petróleo, minério e alimentos.
Essa dinâmica, que muitos começaram a chamar de “A Vingança da Velha Economia”, fortalece a narrativa de que economias baseadas em recursos naturais podem emergir como beneficiárias temporárias de choques geopolíticos.
2. Uma Guerra Não é Motivo para Otimismo
É sempre complicado tratar uma guerra como evento encorajador, pois ela traz consequências humanas devastadoras. Mortes, deslocamentos, rupturas familiares e sofrimento são realidades que não se podem dissociar de análises econômicas.
Nesta newsletter, porém, minha intenção não é moralizar ou minimizar tragédias humanas: é alertar para a complexidade dos efeitos que emergem quando eventos assim reverberam nos mercados.
3. O Perigo do Pensamento Binário
Uma das principais armadilhas cognitivas em momentos de crise é o impulso de pensar de forma binária – simplificar cenários em dois polos opostos. No contexto atual, muitos se inclinam a acreditar que os Estados Unidos rapidamente dominarão o Irã e promoverão a mudança de regime que parecem buscar. Afinal, o impulso humano busca conclusões simples em meio à incerteza.
Mas a história nos ensina que mudanças de regime sem “boots on the ground” (“sem tropas de terra”, em tradução livre) são difíceis de serem realizadas. A complexidade sociopolítica, as redes regionais de influência e as capacidades assimétricas tornam qualquer previsão desse tipo arriscada.

4. Queimando Pontes e Ampliando Riscos
O Irã sofreu recentemente a perda de seu líder supremo, um evento de enorme simbolismo e implicações geopolíticas. Em resposta, o país tem promovido ataques agressivos, incluindo ações com drones contra uma das maiores refinarias do mundo (Ras Tanura, da Saudi Aramco) e relatos de explosões em centros urbanos de territórios vizinhos, como Dubai, Abu Dhabi e Catar.
Há também relatos de tentativas de fechar o Estreito de Ormuz — passagem vital para boa parte da produção global de petróleo.
Esses movimentos podem ser descritos como “burning bridges” (queima de pontes estratégicas), ampliando seu isolamento internacional e gerando incertezas que vão muito além de um simples movimento de curto prazo nos preços do petróleo.
5. Cuidado com Notícias Filtradas e Simplificações
Como brasileiros, muitas vezes dependemos de notícias em inglês e análises originadas nos EUA para interpretar eventos globais. Essa dependência pode enviesar nossa percepção e limitar a compreensão dos riscos que realmente importam.
É essencial refletir não apenas sobre o impacto imediato, mas também sobre os efeitos indiretos e persistentes que podem surgir daqui para frente.
6. Quem Ganha e Quem Perde: Uma Visão Mais Complexa
A mídia internacional tem pintado um quadro em que fornecedores de commodities (Brasil, Colômbia, Austrália, Noruega) sairiam relativamente beneficiados, enquanto economias importadoras de energia, como União Europeia, China, Índia e Turquia, sofreriam impactos negativos.
Essa narrativa, embora plausível, é apenas uma parte da história.
Devemos pensar sobre prêmios de risco que podem se tornar estruturais, não apenas temporários. A percepção de risco, os realinhamentos de blocos econômicos e as mudanças nas cadeias globais de valor podem redefinir premissas antes consideradas estáveis.
Um exemplo de risco de segunda ordem foi a reação dos EUA à invasão da Ucrânia pela Rússia em 2022, quando magnatas russos tiveram ativos confiscados sem o devido trâmite jurídico, em clara tensão com o conceito de “Rule of Law” (o bom e velho Estado de Direito).
Esse tipo de evento contribuiu, entre outros fatores, para um dólar mais fraco e ilustra como medidas tomadas em resposta a um evento geopolítico podem gerar efeitos amplos e duradouros.
7. Em Síntese: Não é Hora de Profetizar
Não é hora de acreditar que este conflito terá um desfecho rápido, simples ou hollywoodiano. É possível que ele se arraste por mais tempo e gere consequências estruturais que afetem mercados, fluxos de capital, prêmios de risco e, sim, o Brasil de maneiras que ainda não compreendemos totalmente.
O convite aqui é para refletir criticamente, olhar além dos impulsos reducionistas e considerar que os efeitos indiretos – muitas vezes mais lentos e silenciosos – podem moldar o ambiente econômico global tanto quanto o próprio evento em si.
Um abraço.
Marink Martins, CNPI






