André Esteves, chairman e sócio sênior do BTG Pactual (BPAC11), avaliou nesta terça-feira (11), durante o CEO Conference, que o Brasil chega a 2026 em condição econômica “muito melhor do que parece”, apesar do ruído político e dos episódios recentes que abalaram a confiança em instituições.
“Seja quem for o próximo presidente no ano que vem, vai sentar na cadeira de uma maneira muito diferente do que foram os outros presidentes que fizeram bons governos”, disse, ao comparar o ponto de partida atual com momentos de “terra arrasada” citados por ele em 1994, 2002 e 2017.
Na fotografia macroeconômica, Esteves afirmou ver inflação em trajetória de queda, juros em movimento de recuo ao longo do ano, reservas elevadas e mercado de trabalho apertado.
“A inflação está saindo de 4% para 3%, o juro vai ficar caindo aí o ano inteiro”, afirmou.
Na mesma linha, mencionou reservas cambiais de US$ 360 bilhões e disse que o investimento direto externo supera o déficit em conta corrente.
Para ele, o principal desafio que “sobrou” é fiscal: “Uma última perna de ajuste” para dar “sustentabilidade para a trajetória da dívida”, que ele resumiu como “um ajustezinho de 2% do PIB nas contas públicas”.
“Batalha” institucional, caso Master e revisão do FGC
No campo institucional, o executivo descreveu uma “batalha” entre o que chamou de Brasil institucional e Brasil não institucional, citando como exemplos a informalidade no setor de combustíveis e o episódio envolvendo o Banco Master — tratado por ele como um caso que testa a credibilidade de processos de resolução e de fiscalização.
“O mercado de combustíveis ficou 20% informal. Como é que isso pode acontecer?”, questionou. “Como é que pode o banco dessa dimensão pequena criar um rombo de 50 bilhões no FGC? Não pode, não é para acontecer.”
Apesar das críticas, Esteves disse ver sinais de reação do sistema e das autoridades. Ele mencionou investigações e operações em curso e afirmou que instituições “estão funcionando”, embora precisem ser aperfeiçoadas.
“Nós estamos vendo uma sequência de operações, de investigações, a imprensa está exercendo seu papel e eu acho que o Supremo vai exercer seu papel também”, disse, ponderando que há “ruído” em torno do tema, mas que o avanço das apurações ajuda a recompor confiança.
No caso específico do sistema financeiro, o chairman do BTG defendeu a necessidade de revisar regras e procedimentos após o episódio.
“As regras do FGC claramente estão erradas”, afirmou, ao defender um “post-mortem” para entender falhas e ajustar a supervisão.
Ao mesmo tempo, descreveu o setor como sofisticado e com mercado de capitais profundo para padrões de emergentes.
“A gente tem o sistema financeiro dos mais sofisticados… do mundo”, disse, ao citar a capacidade de empresas emitirem dívida de longo prazo.
Esteves também comentou a reação de plataformas e distribuidores, em meio a questionamentos sobre “moral hazard” na venda de produtos.
Segundo ele, o BTG reduziu a distribuição de títulos da instituição quando percebeu sinais de problema e depois interrompeu as vendas “de maneira responsável”, sem gerar estresse de liquidez.
“Fizemos consecutivas campanhas para os investidores estarem dentro dos limites sobre garantia”, disse, defendendo que “uma maçã podre” não deveria “estragar uma história” que considera positiva para a democratização do acesso a investimentos.
Eleição “fifty-fifty”, fluxo estrangeiro e risco político menor
Na política, o executivo disse esperar uma disputa presidencial competitiva em 2026, com cenário “grosseiramente fifty-fifty”.
Para ele, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva teria “ligeiro favoritismo” pelo recall e pela experiência de campanha, mas avaliou que a sociedade estaria “um pouco mais à direita” em termos de valores. Do outro lado, afirmou que o nome da direita — citando Flávio Bolsonaro, Ratinho Jr. ou Tarcísio de Freitas — precisaria unificar o campo para disputar em condições de igualdade.
Ainda assim, Esteves argumentou que a eleição tende a fazer menos preço do que em ciclos anteriores, interpretação que ele associou ao comportamento recente do mercado.
O chairman do BTG citou que, em janeiro, entrou mais dinheiro na bolsa brasileira do que no ano passado inteiro e disse que isso sinaliza redução do risco político percebido.
“As eleições se tornaram menos relevantes para a crença de médio e longo prazo no país”, afirmou. “A percepção geral de que o risco político no Brasil diminuiu… deve ser celebrada.”
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Neutralidade geopolítica e “vocação” brasileira
No cenário internacional, o chairman do BTG defendeu que o Brasil mantenha neutralidade em um mundo mais polarizado e foque em suas “vocações” — especialmente em commodities agrícolas, minerais e energia.
Ele criticou tentativas recorrentes de política industrial em áreas nas quais o país não teria vantagem comparativa, como semicondutores e indústria naval, e disse que apostar em programas com subsídios tende a “dar errado”. Por outro lado, avaliou que o ambiente global pode ser “na margem” mais favorável ao Brasil e citou a relevância do país para a segurança alimentar.
Ao comentar Estados Unidos, disse ver uma agenda americana com pontos positivos — como desregulação e incentivo à inovação — e criticou o viés “mercantilista” associado a tarifas. Ainda assim, afirmou enxergar espaço para que o Brasil transforme tensões recentes em oportunidade, citando a possibilidade de avanços em um acordo comercial com os EUA.
No encerramento, Esteves criticou a “cultura do medo” citada em debates globais sobre CEOs e política e defendeu que empresas e lideranças falem com autoridades “de maneira ponderada, construtiva e educada”, ancoradas em dados.
“Você só acumula credibilidade falando certo”, disse.






