O Brasil pode enfrentar uma nova greve dos caminhoneiros nos próximos dias ou semanas. O gatilho é o mesmo de 2018: a alta no preço do diesel. Em resposta à ameaça de paralisação, o governo federal deve anunciar medidas para reforçar o cumprimento da tabela de frete mínimo e punir empresas reincidentes no descumprimento.
“O Ministério da Fazenda também pode aumentar a pressão sobre os governos estaduais para reduzir o ICMS sobre combustíveis e melhorar a fiscalização das práticas de preços”, explicam Isabella Simonato, Fernando Olvera e Julia Zaniolo, analistas do Bank of America.
Lição de 2018
A greve de maio de 2018, que durou dez dias, deixou rastros expressivos na produção industrial. Os dados mostram queda de 10% na produção de alimentos em maio daquele ano, com recuperação de apenas 2% em junho. A produção de bebidas recuou 7% e a de bebidas alcoólicas caiu 8% no mesmo período.
“A cadeia de abastecimento de frango foi o segmento mais afetado dentro de proteínas”, destacam os analistas do Bank of America.
(Imagem: Unsplash)
Proteínas na linha de frente
O acesso restrito a rações elevou a mortalidade dos plantéis, e as interrupções logísticas impediram o transporte de aves vivas para os frigoríficos.
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A MBRF (MBRF3) registrou impacto de R$ 75 milhões — 2,8% do seu Ebitda de 2018. A Seara, subsidiária da JBS, teve perdas de R$ 112 milhões, equivalentes a 7,5% do Ebitda no mesmo ano. No total, segundo a Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), o setor avícola acumulou prejuízos de R$ 3 bilhões.
No segmento de carnes bovinas, a Minerva (BEEF3) reportou redução de 6,3 pontos percentuais nas taxas de abate no segundo trimestre de 2018.
“A empresa conseguiu mitigar o impacto aumentando a utilização da capacidade em suas operações no restante da América do Sul”, apontam Simonato, Olvera e Zaniolo.
Bebidas e alimentos embalados
O impacto sobre bebidas e alimentos embalados foi em grande parte temporário. A Ambev (ABEV3) registrou queda de 300 pontos-base no volume durante a greve, mas recuperou integralmente as perdas em junho, impulsionada pela demanda da Copa do Mundo.
M. Dias Branco (MDIA3) e Camil (CAML3) também registraram deslocamento de volumes dentro do trimestre.
(Imagem: Unsplash)
Combustíveis e grãos
A Raízen (RAIZ4) foi uma das mais afetadas fora do setor de alimentos.
“A Raízen reportou perdas de R$ 200 milhões com a greve — 7% do Ebitda de distribuição de combustíveis em 2019 —, devido a menores volumes e vendas de diesel com desconto”, ressaltam os analistas.
A SLC Agrícola (SLCE3) relatou atrasos nos embarques de grãos, mitigados pela capacidade de armazenagem da companhia. Contudo, outros produtores sem essa estrutura podem enfrentar custos de frete mais elevados em caso de nova paralisação.