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Relembre o caso Coroa-Brastel, maior escândalo financeiro nacional até o Master

Relembre o caso Coroa-Brastel, maior escândalo financeiro nacional até o Master

Antes do caso Master, o Coroa-Brastel foi um dos episódios mais conhecidos do mercado financeiro

O caso Banco Master já custou aos cofres do Fundo Garantidor de Crédito (FGC) um valor total de R$ 52 bilhões — considerando apenas aqueles que têm direito a receber recursos em decorrência da fraude ocorrida no banco. Mas, antes desse escândalo, houve outro que marcou o mercado brasileiro por décadas: o episódio que ficou conhecido como Coroa-Brastel.

Antes, é preciso relembrar o contexto da época. Em tempos de inflação galopante, que corroía o poder de compra dos brasileiros, e em um período em que não existia internet, o empresário Assis Paim Cunha despontou com a fundação, nos anos 1970, de uma rede de lojas chamada Brastel, que tinha como diferencial a venda de produtos a preços baixos.

O problema surgiu com o braço financeiro do grupo Coroa-Brastel, fundado por Paim Cunha, que incluía companhias como Coroa Administração e Participações S.A., Coroa S.A. Crédito, Financiamento e Investimento, Coroa Distribuidora de Títulos e Valores Mobiliários S.A., entre outras, como a Laureano Corretora, adquirida em 1981.

A fraude

Para se capitalizar, a instituição passou a emitir letras de câmbio com juros extremamente elevados. Principalmente porque o Coroa-Brastel havia conseguido um empréstimo junto à Caixa Econômica Federal, com a ajuda o envolvimento de ministros do então governo do presidente João Figueiredo — como Delfim Netto, do Planejamento, e Ernane Galvêas, da Fazenda.

Os recursos seriam aplicados no reforço do capital de giro da Brastel. Mas isso não aconteceu. O dinheiro foi utilizado para pagar dívidas da Laureano.

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Foi nesse contexto que o grupo intensificou a emissão de letras de câmbio para quitar o empréstimo feito junto à Caixa. Ao mesmo tempo, o conglomerado começou a enfrentar dificuldades para vender os títulos, à medida que o mercado financeiro passava a desconfiar da prática agressiva. Para se ter uma ideia, o padrão de juros da época girava em torno de 150%, enquanto o grupo Coroa oferecia taxas de até 250%.

A solução adotada foi a emissão de novos títulos sem lastro suficiente, o que agravava a situação financeira a cada dia. Esses títulos e a situação financeira cada vez mais delicada do grupo, levaram o Banco Central (BC) a intervir na instituição, decretando a liquidação extrajudicial do Coroa-Brastel em 1983.

Quando houve a intervenção do Banco Central, o prejuízo total aos investidores, em valores atualizados, foi estimado em R$ 250 milhões, afetando cerca de 34 mil pessoas que aplicaram recursos nesses papéis.

Sem recursos para arcar com os prejuízos causados pela fraude e consequente liquidação da Laureano, Paim Cunha tentou, sem sucesso, vender a rede Brastel a empresas como o Grupo Pão de Açúcar e o Grupo Fenícia, proprietário da extinta rede de lojas Arapuã.

Nas duas décadas seguintes, o empresário dedicou-se a tentar provar que o escândalo financeiro teria sido provocado por pressão de adversários políticos. Falido, Paim Cunha faleceu em 2008 e, até hoje, o caso permanece como um dos episódios mais emblemáticos do mercado financeiro nacional.

Em uma entrevista dada alguns anos antes de sua morte aos jornalistas Fernando Thompson e Sônia Araripe, do Jornal do Brasil, nos anos 90, Paim – outrora um dos homens mais ricos e influentes do Brasil e que morava de favor em uma casa na Joatinga, Zona Sul do Rio de Janeiro, comprada pelo bicheiro carioca Castor de Andrade – chegou a admitir seus crimes.

“Pedir desculpas não vai reparar todo o mal que eu fiz”, disse ele. Mas ao mesmo tempo, criticou o que chamou, na época, de “indústria da liquidação das instituições financeiras”.