As grandes crises econômicas e financeiras raramente surgem de forma repentina. Pelo contrário, o próprio capitalismo tem intervalos de fortes quedas do mercado.
Na maioria das vezes, as crises se formam lentamente, em ciclos de crescimento acelerado, crédito abundante e valorização contínua dos ativos — até que, em determinado momento, o sistema faz um movimento abrupto e tudo cai de uma hora para a outra.
Para o professor e executivo bancário Luís Carlos Demartini, esse comportamento pode ser explicado por meio do fenômeno do Efeito Canguru, apresentado em seu livro “Crises financeiras e a Regulação Canguru: Por que só mudamos as regras depois do desastre?”.
A metáfora ilustra o comportamento do mercado: longos períodos de estabilidade aparente podem ser seguidos por movimentos bruscos de correção.
“O mercado avança de forma aparentemente estável durante muito tempo. Mas quando os desequilíbrios se acumulam, ele dá um salto. Esse salto pode ser para cima, em períodos de euforia, ou para baixo, quando ocorre o ajuste”, explica.
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Luís Carlos Demartini é mestre em Engenharia Mecânica pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), graduado em Física pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos) e possui especialização em Finanças Empresariais pela Fundação Getulio Vargas (FGV).
Atualmente, é Gerente Executivo de Risco de Mercado e Liquidez do Banrisul (BRSR6) e professor da Universidade Feevale, onde leciona disciplinas de Estatística, Probabilidade e Finanças.
Quando o crescimento vira risco

Segundo Demartini, os sinais de instabilidade costumam aparecer bem antes de uma crise se materializar. Em geral, o processo começa com crescimento econômico acelerado e expansão do crédito.
Nesse ambiente, o aumento da liquidez impulsiona o preço dos ativos, reforçando a percepção de prosperidade e atraindo novos investidores.
“Quando as pessoas começam a ver determinados ativos subindo continuamente, elas passam a acreditar que aquele crescimento vai continuar indefinidamente. O crédito aumenta, a alavancagem cresce e o sistema fica cada vez mais exposto”, analisa Demartini.
O ciclo passa então a se retroalimentar, com os investidores entrando porque os preços sobem — e os preços continuam subindo porque mais investidores entram.
Até que o sistema atinge um ponto de exaustão.
“Chega um momento em que o crescimento deixa de ser sustentável. Quando o ajuste vem, ele não acontece de forma suave. Ele vem como um salto”, explica.
Foi esse padrão que marcou episódios como a crise financeira global de 2008, provocada pelo colapso do mercado de hipotecas subprime nos Estados Unidos.
Dinâmica semelhante também apareceu em 2023, quando bancos regionais americanos, como o SVB, enfrentaram uma corrida por saques após perdas com títulos e marcação a mercado.
A regulação corre atrás da crise
Para Demartini, a história do sistema financeiro mostra que as grandes mudanças regulatórias quase sempre acontecem depois dos colapsos.
“A regulação raramente evolui de forma proativa. Normalmente ela vem depois da crise. Primeiro acontece o colapso, depois surgem as novas regras”, afirma o professor.
Após a crise de 2008, por exemplo, houve avanços importantes na regulação internacional, especialmente com o fortalecimento dos acordos de Basileia, que ampliaram exigências de capital e liquidez para os bancos.
Ainda assim, o professor avalia que o sistema continua parcialmente reativo.
“Hoje estamos mais preparados do que antes de 2008. Houve avanços importantes. Mas ainda existe uma parte significativa de reação. Em períodos longos de estabilidade, a percepção de risco diminui”, destacou Demartini
É justamente nesse ambiente que os excessos voltam a se formar.
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Brasil segue padrões internacionais
No caso brasileiro, Demartini explica que a regulação bancária segue de perto os padrões globais, principalmente os acordos internacionais de supervisão.
“O Brasil adota basicamente os mesmos princípios de regulação que existem no sistema internacional, especialmente os acordos de Basileia. Isso acontece para evitar arbitragem regulatória entre países”, aponta.
Segundo ele, as diferenças entre os sistemas financeiros aparecem menos nas regras em si e mais na forma como elas são supervisionadas.
O risco da próxima crise
Se as crises anteriores foram provocadas principalmente por riscos tradicionais — como crédito excessivo, alavancagem e liquidez —, os próximos episódios de instabilidade podem surgir de novas fontes.
“Grande parte do aprendizado regulatório veio dos riscos clássicos, como crédito e liquidez. Mas hoje existem novos riscos emergentes, como ataques cibernéticos, mudanças climáticas e tensões geopolíticas”, relata.
O custo de ignorar o risco
Embora a regulação imponha custos ao sistema financeiro, Demartini argumenta que o preço de uma crise é muito maior.
“Se é caro investir em gestão de risco, experimente uma crise bancária. O impacto econômico e social costuma ser muito maior”, adverte Demartini.
Segundo ele, é justamente essa lógica que explica por que a regulação costuma avançar apenas após grandes colapsos.
O livro
A teoria é desenvolvida de forma aprofundada no livro “Crises financeiras e a Regulação Canguru: Por que só mudamos as regras depois do desastre?”, no qual Demartini percorre a trajetória histórica das crises financeiras e mostra como os grandes avanços regulatórios surgiram após episódios de colapso.
A obra está disponível para compra no site da Amazon.






