Conhecido por suas previsões pessimistas sobre crises globais, o economista Nouriel Roubini (apelidado de “Dr. Doom”), CEO da Roubini Macro Associates, surpreendeu ao adotar um tom mais construtivo sobre o cenário atual.
Em meio a um ambiente marcado por conflitos, tensões políticas e volatilidade, ele avalia que a tecnologia pode ser o principal motor de crescimento nos próximos anos.
Durante participação em evento da Nomad e do Estadão, Roubini afirmou que o mundo vive um momento de ruptura, com riscos relevantes no radar — mas também com oportunidades estruturais ligadas à inovação.
“Vivemos em um mundo do que chamo de incerteza incomum, inesperada e sem precedentes, algo que às vezes me refiro como hiperincerteza”, afirmou.
Tecnologia deve superar impactos de guerra e protecionismo
A principal tese do economista é que o avanço tecnológico tende a ter impacto econômico muito mais relevante do que choques políticos ou comerciais.
“A tecnologia supera as tarifas”, disse Roubini, ao resumir sua visão.
Segundo ele, a inovação pode adicionar cerca de 200 pontos-base ao crescimento dos Estados Unidos, enquanto políticas protecionistas teriam impacto negativo de aproximadamente 50 pontos-base.
A leitura sugere que, mesmo em um ambiente de maior volatilidade, o vetor dominante para os mercados continua sendo o avanço tecnológico, especialmente em setores ligados à nova economia.
Revolução tecnológica é a maior da história
Roubini argumenta que o mundo está diante de uma transformação sem precedentes, que vai muito além da inteligência artificial e atinge diversas indústrias simultaneamente.
“As inovações tecnológicas que ocorrem agora são, na minha opinião, as mais importantes literalmente na história humana; são mais importantes que a invenção do fogo, da agricultura, da prensa móvel e da máquina a vapor”, afirmou.
Segundo ele, essa revolução inclui avanços em semicondutores, robótica, biotecnologia, computação quântica e energia, com destaque para a fusão nuclear como potencial divisor de águas na matriz energética global.
Mundo caminha para desordem e mais volatilidade
Apesar do otimismo com tecnologia, o diagnóstico geopolítico de Roubini permanece duro. Na avaliação do economista, o mundo está migrando de um ambiente de estabilidade para outro mais fragmentado e imprevisível.
“Estamos passando de um período de ordem, calma e estabilidade relativa para um de desordem, instabilidade e volatilidade; passamos das regras globais para a lei da selva”, afirmou.
Esse novo cenário é reflexo do avanço do protecionismo, conflitos regionais e a reorganização das cadeias globais, o que aumenta a complexidade para investidores.
EUA seguem resilientes — independentemente da política
Mesmo com incertezas políticas, Roubini vê os Estados Unidos como o principal polo de oportunidades, sustentado pelo dinamismo do setor privado e pela liderança em inovação.
Ele minimiza o impacto de mudanças de governo sobre a trajetória econômica do país.
“Não importa se o presidente é Biden, Trump ou Kamala Harris; poderia ser o Mickey Mouse e os EUA iriam se sair bem devido ao dinamismo do setor privado”, afirmou.
A avaliação reforça a tese de que a economia americana continua sendo o epicentro da inovação global e, por consequência, dos retornos de longo prazo.
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Entre boom tecnológico e risco de estagflação
Roubini aponta que o mundo vive uma tensão entre dois cenários, um novo ciclo de crescimento impulsionado pela tecnologia ou um retorno à estagflação, caso choques de oferta, como o petróleo, se intensifiquem.
Segundo ele, a inovação atua como um choque positivo de oferta, elevando produtividade e reduzindo custos, o que pode sustentar um “boom secular”.
Por outro lado, conflitos geopolíticos podem pressionar a inflação e desacelerar a atividade, criando um ambiente mais desafiador para os mercados.
Brasil tem potencial, mas depende de reformas
Ao analisar o Brasil, o economista afirmou que o país tem bons fundamentos, mas ainda precisa avançar em reformas estruturais para capturar melhor as oportunidades do cenário global.
Segundo ele, a política monetária é sólida, mas o país tem fragilidades fiscais que limitam o crescimento.
Com recursos naturais abundantes e potencial em energia e infraestrutura, o Brasil pode se beneficiar do novo ciclo, desde que avance em governança e produtividade.
Investidor precisa ter visão global
Por fim, Roubini reforçou que, em um mundo mais complexo e interconectado, o investidor não pode se limitar ao mercado doméstico.
Segundo ele, a globalização segue relevante do ponto de vista de investimentos, e a diversificação internacional é essencial para capturar oportunidades e mitigar riscos.






