Tenho clientes com carros melhores do que o meu. Isso não me incomoda. O que me intriga, às vezes, é que parece incomodar a eles.
Não uso roupa de marca. Meu relógio mais caro custou menos de três mil reais — e hoje em dia eu provavelmente não repetiria esse gasto. Meu passaporte tem poucos carimbos para alguém da minha idade e da minha situação.
Eu poderia viver de outra forma. Simplesmente não vejo razão.
Não é virtude; não é ideologia; é uma coisa bem mais simples: total falta de necessidade de provar qualquer coisa.
E isso, eu descobri com o tempo, é uma vantagem competitiva enorme.
Existe uma verdade que todo mundo conhece e quase ninguém diz em voz alta: o sujeito que compra a BMW no limite do financiamento, que posta o jantar no Figueira Rubayat para o qual só foi após conferir o saldo bancário, que embarca com a tag de classe executiva posicionada exatamente onde todo mundo pode ver… ele não está demonstrando que “chegou lá”.
Pelo contrário: ele está confessando que ainda não chegou.
Ostentação não é sinal de riqueza. É pedido de socorro em neon.
Um economista chamado Thorstein Veblen descreveu esse mecanismo em 1899. Chamou-o de “consumo conspícuo”: gastar não pelo valor do bem, mas pelo que o gasto comunica.
A observação que lhe rendeu essa descrição era fruto da sua época: a classe que ascendia imitava os hábitos da classe acima, que por sua vez precisava encontrar novos símbolos para se distinguir. Uma corrida sem linha de chegada, cara e exaustiva, onde o prêmio é a aprovação de pessoas que você nem necessariamente estima.
Qualquer semelhança com os tempos atuais não é, nem de longe, fruto do acaso.
Veblen olhava para tudo isso da mesma forma que um biólogo estuda insetos. Via a irracionalidade e a descrevia; nomeava. Estava certo no diagnóstico. Errou em outras coisas.
O erro de Veblen era achar que o consumo conspícuo era uma falha do capitalismo. Uma doença do mercado livre, da acumulação privada, da ganância burguesa.
A história não colaborou com essa tese.
A elite política soviética tinha suas casas de campo suntuosas e suas limusines blindadas enquanto o povo fazia fila por pão. Generais cubanos circulam de carro importado numa ilha onde o salário médio é de trinta dólares mensais e um Lada seria uma nave espacial. E Kim Jong-un, quando jovem e viajando para o exterior com passaporte falso, não exatamente vivia como os trabalhadores cujo paraíso ele representa.
Ostentação não é falha do capitalismo. É falha humana. O capitalismo, ao menos, não obriga o contribuinte a pagar a conta.
De volta ao Brasil, onde o fenômeno tem uma estética própria e inconfundível.
A porta de entrada da casa com seis metros de altura, como se o proprietário recebesse visitas de girafa. A sala com o lustre de LED em formato de dois bambolês sobrepostos, que aparece em cada condomínio fechado do interior paulista com a regularidade de uma lei da física. A faceta dental num branco que não existe na natureza, azulado o suficiente para servir de lanterna em caso de queda de energia.
A obsessão com Rolex, como se fosse a única marca de relógio que existe no universo conhecido. As bolsas Chanel compradas a prestação com a justificativa, dita com toda a seriedade, de que é um investimento, uma reserva de valor, um ativo que aprecia.
É possível que quem acredita nisso também acredite que alugar apartamento é jogar dinheiro fora e que título de capitalização é poupança.
E os sapatos de salto fino em contextos absolutamente incompatíveis com salto fino. Imagina a cena: casamento ao ar livre, jardim lindo, cerimônia emocionante. Choveu antes. O gramado está encharcado. Entra uma mulher de Jimmy Choo. Olhar que espera ser notado. O primeiro passo enterra o salto na lama até o tornozelo. Dali em diante, cada metro percorrido é uma negociação com a física. Ela chega à mesa cambaleando, sapato irreparável, sorriso mantido por força de vontade.
É o resumo perfeito do que esse texto está tentando dizer: o objeto não serve à pessoa. A pessoa serve ao objeto. E à plateia que ela imagina que o objeto vai atrair.
A Associação Americana de Psicologia publicou uma pesquisa cuja conclusão não surpreende a ninguém que já observou tudo isso: consumo conspícuo está fortemente associado a baixa autoestima. Quanto mais o sujeito precisa provar, menos ele tem certeza do que tem a provar. E tem um efeito colateral documentado: ostentar faz você parecer menos confiável: as pessoas percebem o interesse próprio na exibição, e isso funciona contra quem exibe em qualquer contexto onde importa parecer generoso ou honesto.
O que parecia estratégia de status vira passivo social.
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