O setor de construção civil iniciou 2026 com desempenho expressivo na bolsa brasileira. Segundo relatório recente do Santander Brasil, as ações de construtoras acumulam alta média de cerca de 26% no ano, superando o avanço do Ibovespa, que já sobe aproximadamente 18% no mesmo período ou cerca de 25% em dólares.
O movimento ocorre após um fim de 2025 mais fraco para o setor, quando as construtoras sob cobertura do banco recuaram cerca de 11% em dezembro e ficaram abaixo do desempenho do mercado. Agora, muitas empresas voltam a testar máximas recentes. Mesmo com valuations mais elevados, o banco acredita que o rali pode continuar.
“Acreditamos que os níveis de valuation mais altos em comparação com os níveis históricos são sustentados pela combinação de um forte desempenho operacional, uma perspectiva sólida para as margens e crescimento de lucros nos próximos anos”, afirmam os analistas do Santander no relatório.
Mudanças no Minha Casa Minha Vida devem sustentar ciclo positivo
Um dos principais pilares da tese positiva do banco para o setor está no mercado de habitação popular, impulsionado pelo programa Minha Casa Minha Vida.
Segundo o Santander, a combinação de mudanças estruturais no programa e melhoria das condições de financiamento pode prolongar o ciclo positivo para construtoras focadas em baixa renda.
Entre os fatores destacados estão a ampliação das faixas de renda atendidas pelo programa, o aumento do teto de preços dos imóveis e maior disponibilidade de recursos para financiamento das Faixas 3 e 4.
Além disso, uma possível revisão das faixas de renda pode ampliar o número de famílias elegíveis para financiamento subsidiado.
“A combinação de melhorias adicionais nas faixas de renda do MCMV, tetos de preços mais altos e funding adicional para as Faixas 3 e 4 reforça nossa visão de que 2026 pode ser mais um ano bastante atrativo para o segmento”, afirma a equipe de research.
Juros menores e crédito ampliado impulsionam média e alta renda
O relatório também aponta um ambiente mais favorável para o mercado de média e alta renda.
Entre os fatores que sustentam essa expectativa estão a estabilidade do índice de custos da construção, o INCC, a expectativa de queda da Taxa Selic e mudanças nas regras de financiamento imobiliário.
Uma das alterações mais relevantes foi a ampliação do teto de financiamento do Sistema Financeiro de Habitação, que passou para R$ 2,25 milhões. A mudança também amplia o limite de utilização de recursos do FGTS nas operações de crédito imobiliário.
Para os analistas do banco, essa combinação de fatores tende a estimular a demanda por imóveis de maior valor ao longo de 2026.
Estoques em São Paulo ainda não preocupam
Outro ponto monitorado pelos investidores é o aumento do estoque de imóveis na cidade de São Paulo, o maior mercado imobiliário do país.
Segundo o Santander, embora os estoques tenham aumentado ao longo de 2025, eles permanecem em níveis administráveis.
No segmento de baixa renda, o estoque cresceu apenas um mês em comparação com dezembro de 2024, permanecendo próximo da média histórica. Já no segmento de média e alta renda houve aumento de quase quatro meses de estoque, reflexo de lançamentos de maior valor e velocidade de vendas naturalmente mais lenta.
“A disciplina das empresas em relação aos lançamentos em segmentos com maior oferta e melhores condições macroeconômicas deve levar a um equilíbrio maior entre oferta e demanda até o final de 2026”, avaliam os analistas.
Cyrela é a principal aposta do banco
Entre as empresas analisadas, a principal recomendação do Santander é a Cyrela, considerada a principal aposta do setor.
O banco elevou o preço-alvo das ações para R$ 43 em 2026, ante R$ 38 anteriormente, e manteve recomendação de compra.
A tese de investimento combina valuation considerado atrativo, crescimento consistente de lucros e um pipeline robusto de projetos.
“A Cyrela permanece como nossa top pick, sustentada pelo valuation atrativo, crescimento consistente de lucros e potencial expansão de ROE”, destaca o relatório.
A empresa negocia atualmente a cerca de 6,4 vezes o lucro projetado para 2026, nível considerado descontado em relação a outros players do setor.
Outro ponto relevante é a crescente participação da Vivaz, marca da companhia voltada ao segmento de habitação popular, que deve ampliar a resiliência dos resultados.
O Santander projeta lucro líquido de R$ 2,16 bilhões em 2026 e de R$ 2,56 bilhões em 2027 para a companhia.
EZTEC volta a ter recomendação de compra
O banco também elevou a recomendação para a EZTEC, que passou de neutra para compra. O preço-alvo foi elevado para R$ 18,60 em 2026, ante R$ 14 anteriormente.
A revisão reflete a melhora consistente no desempenho de vendas de projetos recentes e a estratégia da companhia de focar no segmento de média renda.
“Concentrar os lançamentos em um segmento no qual a empresa possui um histórico sólido, aliado a ganhos inesperados para o segmento de média e alta renda e uma taxa Selic mais baixa, deve continuar a impulsionar o desempenho de vendas da empresa”, aponta o Santander.
Além disso, os analistas avaliam que a empresa pode se beneficiar do aumento da disponibilidade de financiamento imobiliário via poupança, após mudanças regulatórias recentes.
Direcional combina crescimento e dividendos
O Santander também mantém recomendação de compra para a Direcional Engenharia, uma das construtoras mais expostas ao segmento de baixa renda. O banco elevou o preço-alvo das ações para R$ 22 em 2026.
Segundo o relatório, a companhia apresenta um dos perfis de crescimento mais fortes do setor, com crescimento anual composto de cerca de 20% no lucro por ação entre 2025 e 2028. A empresa também se destaca pelo potencial de distribuição de dividendos.
“Continuamos a observar uma combinação de forte crescimento de lucros, dividend yield robusto e risco altista para vendas e lançamentos”, afirmam os analistas.
O Santander projeta dividend yield de 6,2% para 2026 e de 10,3% para 2027. Cerca de 60% das vendas da companhia estão concentradas nas Faixas 2, 3 e 4 do Minha Casa Minha Vida, o que aumenta a sensibilidade positiva da empresa a possíveis melhorias no programa habitacional.






