O vencimento da patente da semaglutida na Índia em março de 2026 marca um ponto de inflexão para o mercado global de medicamentos GLP-1 — classe que inclui o Ozempic e o Wegovy, da Novo Nordisk.
Em poucos dias após o fim da exclusividade, dezenas de farmacêuticas indianas lançaram versões genéricas do medicamento, derrubando o custo mensal do tratamento para cerca de US$ 14 – desconto de até 90% em relação às versões de marca.
“A expiração da patente marca um ponto de inflexão crucial para o mercado global de GLP-1, encerrando efetivamente a exclusividade de uma das franquias farmacêuticas mais valiosas do mundo”, afirmam Luiz Guanais, Yan Cesquim e Beatriz Cendon, analistas do BTG Pactual.
Índia como laboratório global
A velocidade da entrada dos genéricos no mercado indiano surpreendeu pela escala. Empresas como Sun Pharma, Dr. Reddy’s, Zydus e Glenmark já introduziram produtos em múltiplos formatos e faixas de preço. O custo mensal, que antes superava US$ 100, caiu para a faixa de US$ 15 a US$ 40, ampliando drasticamente o acesso ao medicamento.
“A Índia serve como um estudo de caso para entender como preços, volumes e intensidade competitiva podem evoluir globalmente à medida que as exclusividades expiram”, destacam os analistas do BTG.
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Apesar disso, a consolidação do mercado deve favorecer, no longo prazo, empresas com escala, eficiência manufatureira e forte presença comercial.
O mercado global de GLP-1 deve atingir aproximadamente US$ 100 bilhões até o fim da década. Contudo, a erosão de preços nos mercados emergentes representa uma mudança estrutural relevante no perfil de receitas da Novo Nordisk — ainda que os Estados Unidos permaneçam protegidos pela patente até o início dos anos 2030.
Brasil: transição gradual a partir de julho
No Brasil, o cenário é diferente. Apesar do vencimento legal da patente, nenhum produto concorrente está disponível ainda – reflexo da complexidade regulatória e da necessidade de aprovação da Anvisa.
“Os primeiros genéricos são esperados apenas a partir de julho ou agosto, implicando um período temporário de estabilidade de preços antes que a concorrência se materialize”, explicam Guanais, Cesquim e Cendon.
O mercado brasileiro de GLP-1 já soma cerca de R$ 10 bilhões e tem forte momentum de crescimento. Com a entrada dos genéricos, os preços devem recuar entre 20% e 40% inicialmente, com potencial de erosão de 55% a 73% no longo prazo. No entanto, a expansão do acesso deve mais do que compensar essa queda, com o mercado potencialmente superando R$ 15 bilhões em 2026.
“Para os varejistas farmacêuticos, essa dinâmica é estruturalmente positiva: os medicamentos GLP-1 são produtos de alto valor, recorrentes e que geram tráfego e oportunidades de cross-selling”, concluem os analistas do BTG.
O Brasil está na fase inicial dessa transição — e o caminho aponta para um mercado mais competitivo, mais acessível e significativamente maior.
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