As eleições presidenciais brasileiras têm sido marcadas por ciclos de forte polarização política nos últimos anos. A disputa eleitoral passou a se organizar em torno de dois grandes polos, frequentemente com margens apertadas e uma divisão regional bastante clara no comportamento do eleitorado.
Esse padrão atingiu seu ponto máximo nas eleições de 2022, quando Lula derrotou Bolsonaro por uma diferença extremamente pequena, de pouco mais de 2,1 milhões de votos no segundo turno, na disputa que acabou sendo a mais acirrada desde a redemocratização.
Olhando à frente, o cenário que se desenha para este ano parece caminhar na mesma direção. As pesquisas têm apontado para um duelo apertado entre Lula e Flávio Bolsonaro, com boa parte delas indicando um cenário de empate técnico.
Ao mesmo tempo, a possibilidade de surgimento de uma terceira via permanece bastante limitada.
Nesse contexto, compreender os determinantes quantitativos do resultado eleitoral torna-se particularmente relevante, especialmente em um ambiente no qual pequenas mudanças podem fazer grande diferença no desfecho da disputa.
Para isso, desenvolvemos uma análise sobre os dados do Tribunal Superior Eleitoral desde 2002, que sugere que o resultado de 2022 não pode ser explicado apenas por mudanças na preferência política dos eleitores.
Um fator menos destacado, mas potencialmente decisivo, foi o comportamento da participação eleitoral, isto é, a proporção de eleitores que efetivamente registraram um voto válido.
Desde 2002, a taxa de participação da região Sudeste, responsável por aproximadamente 43% da população apta a votar, vinha apresentando trajetória de queda.
Em 2022, contudo, essa dinâmica se inverteu. A proporção de votos válidos na região aumentou de forma significativa, passando de 67,9% para 74,7%, como mostra o gráfico abaixo, depois especificado também por Estados.


Essa redução relevante na proporção de votos brancos, nulos e abstenções teve impacto direto sobre o resultado eleitoral. Com maior participação do eleitorado, Lula conseguiu reduzir de forma expressiva a diferença de votos na região Sudeste, que passou de aproximadamente 13,3 milhões para cerca de 4,2 milhões de votos.

Embora esse movimento tenha sido observado em todos os estados da região, o caso mais emblemático foi o de São Paulo. Por concentrar mais de 22% do eleitorado nacional, o maior colégio eleitoral do país teve papel particularmente relevante nessa dinâmica.
No estado, a diferença de votos caiu de aproximadamente 8,1 milhões para cerca de 2,7 milhões, contribuindo de forma decisiva para o resultado da eleição, cuja margem final foi de pouco mais de 2,1 milhões de votos.

Assim, uma parcela importante da vitória de Lula esteve associada à recuperação de desempenho justamente no Estado mais populoso do país, que nos últimos anos vinha apresentando ampla vantagem para a oposição.
Nesse contexto, a região Sudeste, e sobretudo São Paulo, podem ser interpretados como o principal “game changer” da eleição presidencial de 2022.
Mais do que uma simples mudança de preferência política, o fator determinante parece ter sido o aumento da participação nas urnas, que ampliou o número de votos válidos e reduziu a vantagem observada anteriormente na região.
Essa evidência é particularmente relevante ao projetarmos o cenário para 2026. Em uma disputa que novamente tende a ser marcada por forte polarização e margens estreitas entre os principais candidatos, a dinâmica de participação eleitoral no Sudeste, e especialmente em São Paulo, pode voltar a desempenhar papel decisivo.
Em eleições decididas nas margens, pequenas variações na mobilização do eleitorado em regiões de grande peso demográfico podem ser suficientes para definir o resultado final.






