A recuperação extrajudicial do GPA (PCAR3) não significa o fim das operações da rede de supermercados, mas sim tem o objetivo de evitar que a companhia enfrente um quadro ainda mais grave no que se refere ao seu endividamento. Segundo a analista Carolina Borges, head da EQI Research, a medida evita a recuperação judicial, que tem um caráter mais formal e é mais indicada quando não existe consenso prévio com credores.
“Isso confirma algo que já era relativamente claro: a companhia enfrenta dificuldades financeiras e precisa reorganizar seu passivo, especialmente diante de vencimentos relevantes de dívida neste ano”, comentou ela e acrescentou que a situação reforça a separação entre o processo de reorganização financeira da empresa e o funcionamento da operação no dia a dia.
A head da casa de análise explicou que a recuperação extrajudicial envolve dívidas financeiras da companhia. Segundo o próprio CEO da empresa, Alexandre Santoro, pagamentos operacionais, como fornecedores, salários e aluguéis das lojas, seguem sendo feitos normalmente.
Além disso, a recuperação deve possibilitar aquisição ou de entrada de novos operadores na estrutura. Isso porque, diferente de outros o varejo alimentar oferece esse tipo de oportunidade estratégica, justamente por conta da capilaridade física e do valor que essas operações têm em mercados-chave.
Notícia positiva
Fernando Tardioli, sócio-fundador do escritório Tardioli Lima, explicou que em tese, a notícia pode ser considerada positiva para o grupo, pois houve um entendimento com os credores e houve sucesso em convencê-los a de que tem condições de honrar as dívidas.
Para ele, esse movimento tem o potencial de dar mais fôlego financeiro para o caixa da companhia e reduzir parte da pressão sobre o caixa no curto prazo.
“Agora, o que o investidor deve acompanhar é se as condições negociadas serão suficientes para permitir uma recuperação efetiva da empresa e se a companhia conseguirá fazer o restante da lição de casa, com ganho de eficiência, corte de gastos e ajustes necessários para voltar a operar de forma saudável”, completou.
Segundo Gustavo Cruz, estrategista-chefe da RB Investimentos, é possível imaginar que, nesse contexto, concorrentes aproveitem um momento de fragilidade financeira do grupo de supermercados para entrar na operação por meio de aquisição ou parceria, seja usando bandeiras do próprio GPA ou do hipermercado Extra, que também pertence ao grupo.
“No caso do GPA, estamos falando de uma estrutura física consolidada. No Brasil, assim como em outros países, o setor de supermercados não passou por uma migração massiva do consumo para o online, mesmo com iniciativas muito agressivas de empresas como a Amazon nos Estados Unidos”, complementa ele.
E os FIIs relativos ao GPA?
Quanto aos Fundos Imobiliários (FIIs) relativos ao GPA, o investidor não fica exposto ao balanço da companhia. Segundo Carolina Borges, esse tipo de investimento se diferencia da compra de ações ou crédito corporativo. O investimento está lastreado em imóveis, contratos de locação e estruturas de garantia.
“No caso de vários desses fundos, estamos falando de contratos de longo prazo, muitas vezes atípicos, com multas relevantes em caso de saída antecipada”, completou ela.
A implementação do plano de reestruturação envolve cerca de R$ 4,5 bilhões em obrigações de pagamento sem garantia. Segundo comunicado divulgado ao mercado, o plano contempla apenas dívidas que não estão relacionadas às operações correntes da empresa.
Ficam de fora do processo compromissos considerados operacionais, como pagamentos a fornecedores, parceiros e clientes, além de obrigações trabalhistas. De acordo com a empresa, esses passivos continuarão sendo honrados normalmente e não serão afetados pela reestruturação.
O acordo foi firmado entre a companhia e seus principais credores, que representam 46% do total de créditos abrangidos pelo plano, o equivalente a aproximadamente R$ 2,1 bilhões. Esse percentual supera o quórum mínimo legal exigido para esse tipo de procedimento, que é de um terço dos créditos afetados.






